Os atributos de Deus são as suas qualidades essenciais nas quais o Ser de Deus é revelado e com os quais pode ser identificado.
a. O Ser de Deus
A Bíblia nunca opera com um conceito abstrato de Deus, mas sempre O descreve com o Deus Vivente, que entra em várias relações com as suas criaturas, relações que indicam vários atributos diferentes. E o consenso da opinião da igreja primitiva, durante a idade média, e no tempo da Reforma, foi que Deus, em seu ser mais recôndito, é O Incompreensível. Os escolásticos falavam de três perguntas às quais todas as especulações a respeito do Ser Divino podiam ser reduzir-se: Quem é Deus? Qual a natureza de sua constituição interna? O que é que faz que Ele seja o que Ele é? Para responder adequadamente essas perguntas teríamos que ser capazes de compreender Deus e oferecer uma explicação satisfatória do seu Ser Divino, e isto é completamente impossível. O Finito não pode compreender o infinito. Calvino também fala da essência divina como incompreensível. Ele sustenta que Deus, nas profundezas do Seu Ser, está fora de alcance. Já Tomas de Aquino afirmava que os atributos de Deus não revelam o que Deus é em Si mesmo, nas profundezas do Seu Ser, mas somente o que Ele é em relação às Suas criaturas.
Devido à estreita relação entre os atributos e a essência de Deus, pode-se dizer que o conhecimento dos atributos leva consigo o conhecimento da essência divina. Seria um erro conceber a essência de Deus como existente por Si própria e anterior aos atributos, como também seria um erro conceber os atributos como características aditivas e acidentais do Ser Divino. São eles qualidades essenciais de Deus, inerentes ao seu próprio Ser e com Ele coexistente. Estas qualidades não podem ser alteradas sem alterar o Ser essencial de Deus. E desde que são qualidades essenciais, cada um deles revela-nos alguns aspectos do Ser de Deus.
3.4 Os Atributos de Deus em Geral
a. Definição de Atributos
Os atributos de Deus podem ser definidos como as perfeições que constituem predicados do Ser Divino na Escritura, ou que são visivelmente exercidos por Ele em sua Obras de criação, providência e redenção.
b. Método de Determinação dos Atributos de Deus
Os Escolásticos afirmavam três modos pelos quais determinar os atributos de Deus: Via da Causalidade, onde subimos dos efeitos à uma causa primeira; Via da Negação, quando retiramos de nossa idéia de Deus todas as imperfeições humanas; e, Via da Eminência, quando atribuímos a Deus, em grau infinitamente perfeito, as qualidades que encontramos no homem.
Na Teologia Experimental de Macintosh o postulado praticamente necessário é que Deus é absolutamente suficiente e absolutamente confiável com referência às necessidades religiosas do homem, e que é sobre esta base que o homem pode construir a sua doutrina sobre os atributos de Deus.
Esses métodos têm seu ponto de partida na experiência humana, e não na Palavra de Deus. Deliberadamente ignoram a clara revelação que Deus nos dá de Si na Escritura e exaltam a idéia do descobrimento humano de Deus. Os que se apóiam em tais métodos fecham os olhos para a única avenida pela qual poderiam obter real conhecimento de Deus, a saber, a Sua revelação especial, evidentemente esquecidos do fato de que somente o Espírito de Deus pode sondar e revelar as profundezas de Deus, e no-las revelar. O próprio método de que se utilizam os compele a arrastar Deus para baixo, ao nível do homem, ao salientar sua imanência em detrimento de Sua transcendência. E como resultado final de sua filosofia, temos um Deus feito à imagem do homem.
A única maneira apropriada pela qual podemos obter conhecimento dos atributos divinos perfeitamente confiável é o estudo da auto-revelação de Deus na Escritura. É verdade que podemos adquirir algum conhecimento da grandeza e poder de Deus, de sua sabedoria e bondade, pelo estudo da natureza, mas para uma adequada concepção, mesmo destes atributos, será necessário voltar-nos para a Palavra de Deus. Na teologia da revelação procuramos aprender da Palavra de Deus quais são os atributos do Ser Divino. O homem não pode extrair conhecimento de Deus como o faz dos outros objetos de estudo, mas Deus transmite conhecimento de Si ao homem, conhecimento este que o homem pode somente aceitar e assimilar.
3.5 Os atributos Incomunicáveis
É muito comum, na teologia, falar de Deus como o Ser Absoluto, termo este mais característico da filosofia do que da própria teologia. Na metafísica a expressão “o Absoluto” é um designativo do funda,mento último de todas existência. O termo “Absoluto” é derivado do termo latino absolutus, composto de ab (preposição de, indicando procedência) e solvere (soltar) e, assim, significa livre quanto a condição, ou livre de limitação ou restrição. De sorte que o Absoluto foi considerado como aquilo que é livre de todas as condições(Incondicionado ou Auto-existente), ou livre de todas as relações (o Irrelacionado), de todas as imperfeições (o Perfeito), ou livre de todas as diferenças ou distinções fenomenológicas, como matéria e espírito, ser e atributos, sujeito e objeto, aparência ou realidade (o Real, a Realidade última).
Quando o Absoluto é definido como a Causa primeira de todas as coisas existentes, ou como o fundamento último de toda realidade, ou como o único Ser Auto-existente, pode ser considerado idêntico ao Deus da teologia. Ele é O Infinito, que não existe em relações necessárias, porque Ele é auto-suficiente, mas ao mesmo tempo pode entrar livremente em relações com sua criação como um todo e suas criaturas.
Enquanto os atributos incomunicáveis salientam o Ser Absoluto de Deus, os atributos comunicáveis acentuam o fato de que ele entra em várias relações com as Suas criaturas.
2.3.1 A Existência Autônoma de Deus
Deus é auto-existente, isto é, Ele tem em Si mesmo a base de sua existência (Jo 5:26). O homem, por outro lado, não existe necessariamente, e tem a causa da sua existência fora dele próprio. Este atributo de Deus está implícito nas religiões pagãs e no Absoluto da filosofia. Esta auto-existência de Deus acha expressão no nome YAHWEH. É somente como Ser auto-existente e independente que Deus pode dar a certeza de que permanecerá eternamente o mesmo com relação ao seu povo eleito.
Ele é independente de todas as coisas e todas as coisas só existem por meio dele (Sl 94:8), Is 40:18; At 7:25); Ele é independente em seu pensamento (Rm 11:33,34), em sua vontade (Dn 4:35; Rm 9:19; Ef 1:5; Ap 4:11) em seu poder (Sl 115:3) e em seu conselho (Sl 33:11).
2.3.2 A Imutabilidade de Deus
É a perfeição pela qual não há mudanças em Deus, não somente em Seu Ser, mas também em Suas perfeições, em seus propósitos e em suas promessas. Esta verdade, além de ser escriturística, é comprovada pela razão que nos ensina que não é possível nenhuma mudança em Deus, visto que qualquer mudança é para melhor ou para pior.
A imutabilidade de Deus é claramente ensinada nas Escrituras sagradas (Ex 3:14; Sl 102:26-28; Is 41:4; Is 48:12; Ml 3:6; Rm 1:23; Tg 1:17).
No entanto, há passagens bíblicas que parecem atribuir mudança em Deus (Ex 32:10-14; Jn 3:10; Pv 11:20; Sl 18:26,27). A objeção aqui presente baseia-se até certo ponto em errônea compreensão. A imutabilidade divina não deve ser entendida no sentido de imobilidade, pois na teologia fala-se de Deus como actus Purus, Deus sempre em ação. A Bíblia nos ensina que Deus entra em multiformes relações com os homens, Ele está cercado de mudanças, mudanças nas relações dos homens com Ele, mas não há nenhuma mudança em Seu Ser, em Seus atributos, em Seus propósitos, em Seus motivos de ação, nem em Sua promessas.
Se a Escritura fala do Seu arrependimento, de Sua mudança de intenção, e da alteração que faz de sua relação com os pecadores quando estes se arrependem, devemos lembrar-nos de que se trata apenas de um modo antropopático [ a antropopatia é atribuição de sentimentos humanos a Deus com o fim de, em linguagem humana, tentar melhor compreender a divindade] de falar. Na realidade a mudança não está em Deus, mas no homem e nas relações do homem com Deus.
É importante sustentar a doutrina da imutabilidade de Deus contra a doutrina pelagiana e armeniana de que Deus é sujeito a mudança, na verdade não em Seu Ser, mas em seu conhecimento e em sua vontade, de modo que Suas decisões dependem em grande medida das ações do homem.
2.3.3 A Infinidade de Deus
É a perfeição de Deus pela qual Ele é isento de toda e qualquer limitação em seu Ser Divino e Seus atributos. Esta infinidade não deve ser confundida como se Ele estivesse espalhado pelo universo todo, uma parte aqui, outra ali, pois Deus não tem corpo e, portanto, não tem extensão espacial. Este atributo, conseqüentemente, é uma realidade em Deus e só por Ele compreendida plenamente; e que se pode distinguir em três aspectos, vejamos.
c.1 Sua Perfeição Absoluta: Esta é a infinidade de Deus relacionada em si mesma. O Ser e os atributos de Deus são plenamente perfeitos. Ele é tudo o que deve ser e seus atributos não carecem de acréscimos (Jó 11:7-10; Sl 145:3; Mt 5:48).
c.2 Sua Eternidade: A eternidade é a infinidade de Deus em relação ao tempo. A forma como a Bíblia apresenta a eternidade de Deus é simplesmente a de duração pelos séculos dos séculos sem fim (Sl 90:2; Sl 102:12; Ef 3:21). Devemos lembrar, porém que ao falar como fala, a Bíblia emprega linguagem popular, e não a linguagem da filosofia. Na realidade, a eternidade no sentido estrito da palavra, está relacionada a tudo quanto transcende a todas as limitações temporais (II Pe 3:8). Nossa existência é assinalada por dias, semanas, meses e anos; não há essa divisão na vida de Deus. Ele é o eterno “Eu Sou”. A sua eternidade pode ser definida como a perfeição pela qual Ele é elevado acima de todos os limites temporais e de toda sucessão de momentos, e tem a totalidade da Sua existência num único presente indivisível.
c.3 Sua Imensidade: É a infinidade de Deus em relação ao espaço, e pode ser definida como a perfeição do Ser divino pela qual Ele transcende todas as limitações espaciais e, contudo, está presente em todos os pontos do espaço com todo o Seu Ser. Os corpos físicos ocupam o espaço circunscritivamente, por que limitados por ele; os espíritos finitos ocupam o espaço definidamente, visto que não estão em toda a parte, e Deus ocupa os espaço repletivamente, porque ele preenche todo o espaço. Ele não esta ausente de nenhuma parte do espaço, nem tampouco está mais presente numa parte que noutra. Em certo sentido, os termos “imensidade” e “onipresença”, como são aplicados a Deus, denotam a mesma coisa.; com uma particularidade, ou seja, enquanto a imensidade aponta para o fato de que Deus transcende todo o espaço e não está sujeito às suas limitações, a onipresença denota que ele preenche todas as partes do espaço com to o Seu Ser. A Onipresença de Deus é revelada claramente na Bíblia. O céu e a terra não podem contê-lo ( I Re 8:27; Is 66:1; At 7:48,49) e ao mesmo tempo Ele preenche ambos e é Deus acessível (Sl 139:7-10; Jr 23:23,24; At 17:27,28).
2.3.4 A Unidade de Deus
Este atributo salienta a unidade e a unicidade de Deus, o fato de que Ele é numericamente um e que, como tal, Ele é único. Implica que só existe um Ser Divino, que, pela natureza do caso, só pode existir apenas um, e que todos os outros seres têm sua existência dele, por meio dEle e para Ele (I Re 8:60; I Co 8:6; I Tm 2:5; Dt 6:4).
3.6 Os Atributos Comunicáveis (Deus como Espírito Pessoal)
É nos atributos comunicáveis que Deus se posiciona como Ser moral, consciente, inteligente e livre, como ser pessoal no mais alto sentido da palavra.
Para provar a personalidade de Deus têm sido apresentadas provas parecidas com as citadas em prol da existência de Deus, são elas:
1. A personalidade humana requer um Deus pessoal para sua explicação: Visto que o homem é um produto pessoal, o poder que o originou também deve ser pessoal. Doutro modo, existe no efeito alguma coisa superior ao que quer que se ache na causa; e isto seria completamente impossível.
2. O mundo em geral revela os mais claros sinais de uma inteligência infinita, das emoções mais profundas e de uma vontade poderosa. Conseqüentemente, deve existir um Ser Criador do mundo que com inteligência, sensibilidade e vontade, criou todas as coisas.
3. A natureza moral e a religiosa do homem também aponta para a personalidade de Deus. A sua natureza lhe impõe um senso de obrigação de fazer o que é reto, e isto implica necessariamente a existência de um Legislador supremo. Além disso, sua natureza religiosa constantemente o incita a procurar comunhão pessoal com algum Ser superior.
Mas, conquanto todas estas considerações sejam verdadeiras e tenham valor como testemunhas, não são, contudo, as provas de que a teologia depende em sua doutrina da personalidade de Deus. Ela busca prova na revelação que Deus faz de Si na Escritura. A Escritura atesta a personalidade de Deus com quem podem conversar, confiar, amar e serem amados. E, finalmente a mais alta revelação de Deus como ser pessoal está na encarnação de Cristo (Jo 14:9). Provas mais pormenorizadas aparecerão na discussão dos atributos comunicáveis.
a.A Espiritualidade de Deus
A Bíblia não nos dá uma definição de Deus. O que mais se aproxima disso é a palavra dita por Jesus à mulher samaritana: “Deus é Espírito” (Jo 4:24). Pelo ensino da espiritualidade de Deus, a teologia salienta o fato de que Deus tem um Ser substancial exclusivamente seu e distinto do mundo, e que este Ser Substancial é imaterial, invisível, e sem composição nem extensão. Deste de que Ele é Espírito no sentido mais absoluto e mais puro da palavra, não há nele nenhuma composição ou partes (I Tm 1:17; I Tm 6:15,16).
É verdade que a Bíblia fala de mãos e pés, olhos e ouvidos, boca e nariz de Deus, mas ao fazê-lo, está falando antropomórfica ou figuradamente daquele que, de longe, transcende o nosso conhecimento humano.
b.Os Atributos Intelectuais
b.1 O Conhecimento de Deus: É a sua perfeição pela qual Ele, de maneira única, conhece-se a Si próprio e a todas as coisas possíveis e reais num só ato eterno e simples. (I Sm 2:3; Jó 12:13; Sl 94:9; Is 29:15; Is 40:27,28). Sendo perfeito (Jó 37:16), é também simultâneo e não sucessivo, de modo que Ele vê as coisas de uma vez em sua totalidade, e não fragmentadas uma após outra. Além disso é inalterável e completo. Ele conhece o que é possível (coisas que poderiam ocorrer em certas circunstancias) e o que existe concretamente. É preciso defender esta doutrina contra Márcion e Socino e todos quantos acreditam num Deus finito e que possui conhecimento limitado. Quanto a presciência, necessário se faz que afirmemos que ela está presente na Bíblia (I Sm 23:10-13; II Re 13:19; Sl 81:14,15; Jr 2:2,3; Mt 11:21), que ela apóia-se nos decretos de Deus ( vsdvv ) e que a Bíblia afirma tanto a responsabilidade humana como a soberania de Deus ( bsbsbsdb ).
b.2 A Sabedoria de Deus: A sabedoria de Deus é a Sua infinita e perfeita inteligência como manifestada na adaptação de meios e fins. Ela indica de que Ele sempre busca os melhores fins possíveis, e escolhe os melhores meios para a consecução dos seus propósitos (Rm 11:33; Ef 1:11; Cl 1:16; I Co 2:7; Ef 3:10).
b.3 A Veracidade de Deus: Este atributo de Deus pode ser melhor explicado em três aspectos: (1) Ele é a verdade num sentido metafísico, pois só nEle a idéia de Divindade se concretiza perfeitamente, e, portanto, não há outro Deus (Sl 96:5; 97:7; 115:4-8); (2) Ele é a verdade num sentido ético, pois Ele revela-se como realmente é e Sua Relação e plenamente confiável (Nm 23:19; Rm 3:4; Hb 6:18); e, Ele é a verdade num sentido lógico, pois conhece as coisas como realmente são, conhece não somente as aparências, mas também a realidade das coisas. Assim, a verdade de Deus é o alicerce de todo verdadeiro conhecimento (Ex 34:6; Nm 23:19; Dt 32:4; Is 65:16; Jr 10:8; I Jo 5:20,21).
c. Os Atributos Morais
c.1 A Bondade de Deus: É a perfeição de Deus que o leva a tratar benevolamente e generosamente todas as sua criaturas (Sl 145:9,15,16; Mt 5:45; Lc 6:35; At 14:17). Esta bondade revela-se em palavras bíblicas como amor (nnnnns ), graça ( bdbadb ), misericórdia ( gagga ) e longanimidade ( svsdvsdv ).
c.2 A Santidade de Deus: A palavra hebraica para “ser santo”, qadash ( ), deriva da raiz qad ( ), que significa cortar ou separar. A mesma idéia é comunicada pelas palavras hagiazo ( ) e hagios ( ), no Novo Testamento. Disto já se vê que não é correto pensar na santidade primariamente com uma qualidade moral. Sua idéia fundamental é a de uma posição ou relação existente entre Deus e uma pessoa ou coisa. Daí poder-se fala de dois sentidos da santidade: (1) O sentido original no qual Deus é absolutamente distinto de todas as Suas criaturas, e é exaltado acima delas em majestade infinita. Assim entendida, santidade de Deus é um dos seus atributos transcendentes; (2) e o sentido ético, que o apresenta como aquele que está separado de todo mal moral, isto é, o pecado. Em virtude de sua santidade, Deus não pode ter comunhão com o pecado (Jó 34:10; Hc 1:13). Contudo, a idéia de santidade não é meramente negativa (separação do pecado); tem igualmente um conteúdo positivo, a saber, o de excelência moral, ou perfeição ética. Portanto, podemos definir a santidade como a perfeição de Deus, em virtude daqual Ele eternamente quer manter e mantém a Sua excelência moral, aborrece o pecado, e exige pureza moral em suas criaturas. Esta santidade é revelada na lei moral implantada no coração do homem e que fala por meio da consciência, na Lei revelada à nação de Israel, na pessoa de Cristo, que é chamado “o santo e o Justo” (At 3:14) e na igreja como o corpo de Cristo (Jo 17:11; I Pe 1:16; Ap 4:8).
c.3 A Justiça de Deus: É a perfeição de Deus pela qual Ele se mantém contra toda violação da Sua santidade e mostra, em tudo e por tudo, que Ele é santo. Esta justiça se manifesta especialmente em dar a cada homem o que lhe é devido, em tratá-lo de acordo com os seus merecimentos. Esta justiça é de duas classes: (1) Justiça Remunerativa, que se manifesta na distribuição de recompensa a homens e anjos (Dt 7:9,12,13; II Cr 6:15; Sl 58:11; Mt 25:21, Rm 2:7), não com base em méritos, mas tão somente pela graça; e, (2) Justiça Retributiva, que se relaciona com a imposição de castigos. É uma expressão da ira divina (Rm 1:32; Rm 2:9; II Ts 1:8). O propósito primordial da punição do pecado é a manutenção do direito e da justiça.
d.Os Atributos de Soberania
Deus na Escritura é apresentado como o Criador e Sua vontade como a causa de todas as coisas. Ele sustenta todas as coisas e determina os fins que elas estão destinadas a cumprir, e todas as coisas dependem dele e Lhe são subservientes (Gn 14:19; Ex 18:11; Dt 10:14-17; I Cr 29:11,12; Ne 9:6; Sl 22:28; Jr 27:5; Lc 1:53; At 17:24-26; Ap 19:6). Dois atributos requerem discussão sob este título, a saber: (1) a vontade soberana de Deus, e (2) o poder soberano de Deus.
d.1 A Vontade Soberana de Deus: a vontade divina, na Escritura, é apresentada como a causa final de todas as coisas: a criação e preservação (Sl 135:6; Jr 18:6; Ap 4:11); o governo (Pv 21:1; Dn 4:35); a predestinação e a reprovação (Rm 9:15,16; Ef 1:11), os sofrimentos de Cristo (Lc 22:42; At 2:23), a regeneração (Tg 1:18), a santificação (Fp 2:13), os sofrimentos dos crentes (I Pe 3:17), a vida e o destino dos homens (At 18:21; Rm 15:32; Tg 4:15), e até as menores coisas da vida (Mt 10:29). A palavra vontade, no entanto, quando aplicada a Deus, nem sempre possui a mesma conotação, ela pode designar: (1) a faculdade de auto-determinação de Deus em Ele decide tomar um curso de ação, (2) um plano ou propósito, (3) o poder de executar este plano, ou (4) a regra de vida firmada para as criaturas racionais.
Diz-se, também, que se a vontade decretatória de Deus determinou também a entrada do pecado no mundo, com isso Deus é o autor do pecado e realmente quer uma coisa contrária às sua perfeições morais. Para fugirem à dificuldade, os armenianos dizem que a vontade de Deus, permitindo o pecado, depende do Seu pré-conhecimento do curso que o homem escolheria. Os teólogos reformados (calvinistas), embora mantendo, com base em passagens como At 2:23 e 3:8; etc., que a vontade decretatória de Deus inclui também os atos pecaminosos do homem, sempre têm cuidado de assinalar que se deve conceber isto de modo que não se faça de Deus o autor do pecado. Insistem que a vontade Deus de Deus quanto ao pecado é de permitir o pecado, e não de efetuá-lo e que esta vontade leva consigo a certeza de que o pecado virá ocorrer
d.2 O Poder Soberano de Deus: A soberania de Deus acha expressão, não somente na vontade divina, mas também na onipotência de Deus, ou em seu poder de executar a Sua vontade. Sendo assim, o seu poder soberano pode ser definido como a perfeição de Deus pela qual Ele, mediante o simples exercício da Sua vontade, pode realizar tudo quanto está presente em Sua vontade ou conselho. O poder de Deus, em seu exercício fatual, limita-se àquilo que o seu decreto eterno abrange. Mas o exercício fatual do poder de Deus não representa os seus limites. Deus poderia fazer mais que isso, se fosse esta a Sua intenção. Deve-se manter esta posição contra aqueles que, como Schleiermacher e Strauss, sustentam que o poder de Deus se limita àquilo que Ele realiza de fato. A Bíblia nos ensina por um lado, que o poder de Deus estende-se além daquilo que é realizado de fato (Gn 18:14; Jr 32:27; Zc 8:6; Mt 3:9; 26:53). Mas, por outro lado, ela indica também que há muitas coisas que Deus não pode fazer. Ele não pode mentir, pecar, mudar,e não pode negar-se a Si próprio (Nm 23:19; I Sm 15:29; II Tm 2:13; Hb 6:18). Não há poder absoluto nele divorciado de suas perfeições, em virtude do qual Ele pudesse fazer todo tipo de coisas inerentemente contraditórias entre si. A idéia da onipotência de Deus é expressa pelo nome ‘El-Shaddai; e a Bíblia fala a seu respeito em termos que não deixam dúvida, em passagens como Jó 9:12; Sl 115:3; Jr 32:17; Mt 19:26; Lc 1:37.
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